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A casa que a minha vó queria


Quando comecei a “blogar” há mais de 12 anos, queria compartilhar boas ideias garimpadas em sites achados em madrugadas amamentando meu filho mais velho, fotos da minha cozinha toda rosa com paninhos de pratos de cupcakes e algumas reflexões aleatórias sobre o quão importante pra mim era a ideia de ter uma casa onde me sentisse confortável.

A verdade é que desde muito pequena, na minha vida nômade com meus pais mudando de bairro e cidade três vezes ao ano, cada novo endereço era um novo encontro. Minha relação com todas era de muita troca, uma criança que gostava de ficar em casa.

Minha vó, Edite, que também foi abrigo por anos cruciais da minha história, contava naquelas conversas repetidas sentada no sofá, o quanto essa ligação com o lar tinha um valor importante pra ela, e a partir dessa identificação, o nome  “A casa que a minha vó queria”.

Muita coisa aconteceu de uns tempos pra cá. Coisas que doem e que deixam saudades. Recomeços. Aquela mulher de 24 anos já está beirando os 38. Edite partiu em 2019, nos meus braços. Coisas confusas. A necessidade de reinventar em 2020, confinada, espaços meus. Muito aprendizado no processo de entendimento do que significa intimamente ter um lugar seguro pra morar e querer falar sobre isso.

Apesar da minha presença digital ao longo desses anos ser atrelada a decoração e o tal do “faça você mesmo”, já entendi que falar sobre a minha relação com o morar, é algo muito mais subjetivo, dinâmico, imperfeito. É a minha praia. Quando posto sobre a pintura borrada do meu quarto estou colocando no mundo uma expressão visual de quem sou. Não quero ser diferente, nem viver de pautas genéricas pra ganhar seguidores. Me faço presente quando realmente estou, quando não, tô off vivendo minha vida e cuidando dos meus meninos.

Desejo que 2020 tenha te mostrado a importância de tudo (Muitos não aprenderam mesmo). Foi a tua casa que te proporcionou o momento presente.

Pra encerrar, quero deixar esse poema da Viviane Mosé que é uma tradução de tanta coisa que sinto:

É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.

E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.

O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.

Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo

Que não sobra um canto que não tenha sido tocado

Por minhas mãos.

Depois vou sujando. Com muito gosto.

Deixo peças na sala e louças sujas na pia.

Não na mesma hora mas um pouco

Bastante depois volto limpando.

Assim me faço.

Nos objetos que me acompanham.

Gosto de andar nas ruas e comprar coisas

Que vão se arrumando em torno de mim.

Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas.

Uma camada de livros outra de sapatos.

Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.

Tenho camadas de cosméticos e de adereços.

Uma camada de nomes e de coisas que vejo.

Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.

Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.

Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços.

Torneiras em meus poros. Paredes como roupas de inverno.

(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)

Descanso recostada nas paredes da casa

Que me guardam como um abraço.

Me abraço quando me derramo na sala.

E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.

Tudo em minha casa tem existência.

Todas as coisas significo.

Com os olhos. Ou com as mãos.

Minha casa tem silêncios

Que ás vezes ouço. Em meu corpo

Tem silêncios maiores ainda.

Que às vezes ouço. E faço poemas.

Faço poemas dos silêncios que ouço.

 

 



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