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A casa que eu quero #1


Estava chovendo muito. Foi bem difícil achar um ISO na câmera, compensação também não rolava. As fotos nem estão tão boas, pelo menos  lá no Instagram a edição ajuda. Era dia escuro, estávamos acordando e tinha decidido que precisava começar a semana fazendo conexões verdadeiras com os meninos e com a nossa casa. Então pensei em fotografar coisas com eles, porque essa também é uma forma de fazer pontes entre dor e amor, mistura que sempre resulta em arte.

Comecei a perceber os excessos de móveis, de talheres, de coisas que não nos servem mais, fui procurando planos fechados e levando choques de realidade. Me olhei no espelho e vi que agora tenho rugas na testa, mas que nas minhas bochechas refletiam também respingos de pasta dental. Depois quando peguei a chave em cima do buffet pra colocar na porta, observei que os veios da madeira estão secos, nunca mais passei um hidratante nessa pele.

Por que esses livros estão todos aqui nessa estante? Eles podem ser mais livres, soltos, espalhados. Realmente não entendi essa neura de organização. Poderiam estar correndo pela casa do mesmo jeito que Bernardo faz quando sai do quarto pra sala a 158km/h. Que ideia foi essa minha de amontoá-los assim? Palavras precisam de vento, e aqui não chega, Ana Medeiros.

Ah sim, quando entramos com a câmera no quarto deles, esse menino que tem as bochechas mais gostosas e o sorriso mais largo do apartamento 108, disse: “Tira aqui uma minha nessa parede dos direitos das pessoas, né mãe?” Bem, esses pôsteres que colamos como lambes na parede fazem parte de um projeto em comemoração aos Direitos Humanos e foram feitos por artistas pernambucanos. Temos uma casa poética, mas também política.

O telefone vibrou. Entreguei a câmera pro pioio mais velho e fui olhar quem era “Ei Ana, tu topa gravar um programa mostrando o jardim da tua varanda?”. Olhei pro lado e em voz alta mesmo disse “Que jardim, gente? Ele endoidou?” Vasos quebrados, plantas precisando de terra, samambaia com as folhas secas e cactos aleatórios. Respondi: TOPO.  Tenho um jardim pra criar em uma semana.

Chegou no momento mais temido onde Bernardo diz que é a vez dele e prontamente me bate um desespero de que ele deixe a câmera se espatifar no chão. Lembro que todos precisamos participar, que a intenção é acolher e, rezando, peço uma foto em cima da cama mesmo, somente contando com a possibilidade de que ela caia em cima do colchão.

…E chove, chove demais, chove de pensar como sair de casa hoje. Poderíamos todos voltar pra cama, pegar uma marmita na esquina, cada um entrar na sua conta da Netflix e encerrar esse dias às 9h da manhã, mas daí o ser adulto de nove anos diz “A semana é de prova”.

Criem conexões, atividades simples, percebam suas casas. Deixe que ela te afete, essa é a base do afeto. Você percebe onde mora e reflete sobre você: O tempo lá fora, a espada no chão, o açúcar que já está acabando, o cheiro do jardim que não existe, tua imagem no espelho.

Tem uma frase da Viviane Mosé que diz “Minha casa me sustenta quando o meu próprio corpo me falta”. Sei lá, tenho andado demais refletindo sobre isso.



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