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Casinha do amô: Um coletivo amoroso de crianças


Quando chegamos à fazendo onde moramos hoje, cada um com sua mochila de roupa e meia dúzia de expectativas, pensávamos muito em como nos inserir naquele coletivo de famílias que já compartilhavam anos de convivência. Sentíamos que estávamos adentrando a casa de outros e, que como em toda casa, precisávamos limpar nossos pés e chegar de mansinho com todo respeito do mundo. Lares são como corações, você é muito bem vindx pra entrar, mas precisa estar puro porque é o espaço sagrado de alguém. Me lembro que ficamos entocados por um tempo, observando o movimento e entendendo como se davam as relações por ali.

Até que, entre um dia de sol e uma noite de chuva, Tomé e Nina começaram a fazer as vezes dessa chegança se espalhando pela fazenda, com a liberdade digna da infância que buscamos pra eles. E assim começou a dança dos encontros e das trocas com essas pessoas, um novelo de lã interminável e bem forte que teve seu primeiro fio puxado pelas crianças, os pés mais limpos, as almas mais puras que poderiam nos levar dentro das casas alheias. Me lembro de como foi forte ir reconhecendo as famílias que ali moravam, seus hábitos, seus conceitos e valores, suas escolhas, suas rotinas, tudo pela arquitetura e energia de suas casas. Era a “coisa” mais concreta e imediata que tínhamos naquele momento pra poder reconhecer nossos novos vizinhos, uma vez que as relações têm seu próprio tempo pra acontecer e são como fruta: colher verde no pé é a certeza de nunca saber a verdade absoluta do seu sabor.

Quando Nina ou Tomé sumiam de casa por um longo período de tempo, eu saía caminhando pela fazenda e pulando de casa em casa para procurá-los. No meio desse rolê, entrava pra um café aqui, um dedo de prosa ali, uma muda pro jardim acolá e, no final das contas, as crianças me encontravam antes que eu os localizasse. Era incrível entrar em uma casa e observar os objetos nas prateleiras, os tipos de panela que estavam no fogão, o cheiro do lugar, as cores das paredes, o formato dos móveis, os quadros dependurados, onde se guardavam os sapatos, quais espécies de plantas moravam no jardim, onde ficavam os brinquedos dos seus filhos, quais frutas estavam na gamela em cima da mesa, os sons daquele espaço, tudo. Era como se cada pedaço físico dequela casa fosse uma dica de como eram aquela mãe, o pai, os filhos. Uma brincadeira gostosa de descobrir as pessoas pelos seus lares que fazíamos diariamente, cada dia com uma família diferente.

E, quando outras crianças chegavam na nossa casa (porque elas andam em bando!), sentia que traziam em pequenos detalhes de comportamento e fala um tanto de suas casas também. Mais uma vez, por elas, eu estava me aproximando e estabelecendo laços fortes de irmandade com as pessoas dali. Mais uma vez, eu percebia como lares são algo imensamente maiores que espaços físicos, são lugares de desenvolvimento e manifestação das nossas essências desde pequenos. São campos amplos onde ancoramos nossas muitas necessidades de conforto, de segurança, de independência, de carência, de responsabilidade, de trocas, de autonomia, de conhecimento, de referências, de amor. Quanta coisa se constrói dentro de um ser quando ele tem, especialmente nessa fase da vida, uma casa que é porto seguro para todas as fases de desenvolvimento pelas quais ele passa. É muito gratificante e bonito observar isso e poder estar ali, junto, nestes processos intermináveis de reconhecimento do que somos quando habitamos.

Hoje toda essa dança de crianças em casas alheias é ainda mais forte, com a diferença de que anos se passaram e seus pais agora também entram na roda. Nossas casas são espaços coletivos de trocas incríveis, transitamos por elas como se fossem nossas, sem perder em nenhum momento o respeito pelos limites de espaço e privacidade que cada um demanda. Celebramos aniversários, conversamos sobre nossos desafios maternais e paternais, choramos e rimos, fazemos rezos, buscamos fermento pro bolo emprestado, trocamos mudas e devaneios, ajudamos nos reparos da pia, cuidamos das nossas crianças como se fossem todos filhos de uma única família. Estabelecemos assim, um acordo natural e orgânico de pertencimento físico e espiritual. Estamos construindo juntos a realidade que sonhamos e só conseguimos isso porque temos enraizadas ali nossas casas, nossos pilares sagrados que sustentam nossa existência nesta fazenda.

Um salve para nossas crianças que foram os guias mais incríveis que eu e minha família tivemos para nos sentir parte integrante deste coletivo. Não há nada nem ninguém no mundo melhor do que elas para nos mostrar como se limpa os pés e a alma antes de entrar na casa e no coração do outro.

Ah! Aproveito pra dizer que nossa Casinha do Amô está disponível para aluguel no verão da Bahia. Do dia 07 de janeiro até o carnaval estamos abertos para oferecer nosso cantinho para uma vivência linda por lá! Se quiser saber mais, me escreva no mmelofranco@gmail.com ou me manda uma mensagem no Instagram (@manumelofranco)



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